Acolha os sentimentos – por Rafaella Di Guimarães

Depois de dois anos de pandemia, tentamos seguir em frente. Algumas famílias mais devastadas que outras, mas particularidades à parte, estamos todos de alguma forma marcados por tudo isto.

Me espantei com a demanda de adolescentes necessitando de auxílio psicoterápico que tivemos no ano passado! Consultórios lotados, e listas de espera… Famílias à procura de ajuda para seus filhos, todos necessitados de apoio e curativos emocionais.

Não esperávamos por nada disto… A começar pelo vírus, é claro! Não imaginávamos o quanto o mundo real e as relações reais eram de enorme importância em nossas vidas, e em nossa saúde mental. Sofremos todos isto é fato, alguns mais outros menos. Talvez porque alguns tiveram suas famílias desfalcadas no meio deste turbilhão, talvez porque outros foram encontrando seus caminhos de inteireza no meio do caos, talvez… Mas nesta matemática do agora, temos transtornos depressivos, crises de pânico e anorexia em ebulição entre nossos adolescentes.

Os “filhos do quarto” e habitantes das redes sociais deveriam ser os que melhor enfrentariam este período, você pode supor. Mas, não! Tenho a impressão de que foram os mais prejudicados… Queimaram etapas de convivências reais, festejos de formatura, namoricos, resenhas, e tantos outros momentos importantíssimos nesta parte da vida. Deixaram de SER de um modo real, se calaram , se deprimiram, se entristeceram, e muitos (acredite!) sufocaram tudo isto. Pararam de comer, pararam de praticar esportes, pararam de estudar de verdade, pararam, pararam… E agora se encontram em uma possibilidade de retorno , para alguns de forma lenta, desanimadora e preguiçosa, e para outros de uma forma adoecida tentando juntar os “cacos” e retomar o curso saudável da vida.

Então nos deparamos agora com os mais variados sintomas de adoecimento emocional entre nossos filhos, e uma dificuldade enorme de foco. Dificuldade de foco para ler, para estudar, e para retomar as rotinas e a própria vida. Como pais, precisamos auxiliá los! Não podemos negligenciar seus sentimentos, seus sintomas, e seus pedidos de ajuda ( lembrando que muitos destes pedidos ficam nas entrelinhas, são silenciosos).

Retome a vida, e deixe-a pulsar! Ampare, acolha, aconchegue! Vamos voltando aos trilhos juntos, sem cobranças exageradas, com afeto envolvido, e muita paciência. A adolescência precisa pulsar no mundo real, os encontros são necessários, assim como o cumprimento da rotina e das responsabilidades. Mas, não se esqueça que momentos de recomeços geralmente são momentos de fragilidade também. Acolha os sentimentos, e se necessário for, procure ajuda para apoiar e fortalecer seu filho nesta retomada. Não pense que “está tudo bem”, quando na verdade pode não estar. E nestes casos, o melhor “termômetro” é sua proximidade e disponibilidade para perceber o imperceptível, e oferecer apoio.

Juntos podemos seguir mais fortes, e com maior possibilidade de êxito e equilíbrio emocional se seguirmos afetivamente conectados. Vamos em frente!

RAFAELA DI GUIMARÃES CAMARGO
Mãe de três, psicóloga , psicanalista e psicoterapeuta de crianças e adolescentes.
@psicorafadiguimaraes

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