Nunca antes vivemos um momento tão abreviado em nossa história de vida. Não que eu tenha conhecimento! Todas as situações possíveis, tenho percebido que estão sendo abreviadas. Começou com o novo alfabeto virtual, onde S significa sim, N significa não, ABÇ significa abraço, e estes dias recebi um PDS pode ser… E por aí vai!

Talvez as urgências da rotina, nos autorize abreviar as escritas, como forma de andar mais rápido com algum propósito. Talvez o feijão esteja no fogo, e na pressa abreviamos as mensagens. Mas as abreviações, tem se tornado hábitos de vida. Abrevia-se o que jamais poderia ser abreviado, como um olhar fraterno que enxerga além das circunstâncias, ou um abraço apertado em que se possa passar uma mensagem silenciosa… A propósito, quantos abraços você costuma dar por dia?

Adolescentes não costumam vigiar feijão no fogo, mas vivem em uma urgência desesperada de vida. Tudo é para ontem, quem fala muito é cansativo, portanto se abrevia tudo, e a internet não pode falhar jamais, pois neste caso não se pode nem respirar. Os muitos impulsos inerentes à fase, se potencializaram ainda mais, pois agora até mesmo os sentimentos podem ser simplesmente resumidos em emojis ou abreviações. Se não querem escrever as palavras e frases inteiras, tenha certeza de que também não querem ler nada, e automaticamente qualquer texto de vinte linhas é chato e cansativo, portanto será ignorado. Os vídeos ainda podem ser interessantes, pois não exigem tanta elaboração para a compreensão, e podem ser pausados ou acelerados quando a pessoa bem entender. Até mesmo os áudios longos, agora são facilmente acelerados. Ouvir pai e mãe? Nem pensar! Se passar de duas frases já não estão absorvendo mais nada, estão em outro planeta, e você com certeza está falando ao vento.

Mas as abreviações vão muito além da adolescência atual. As abreviações estão por toda parte, infelizmente. Estamos perdendo a capacidade de nos ouvirmos uns aos outros com paciência e genuinidade. Ouvimos pelas metades, ou nem nos damos ao trabalho de ouvir, inventamos desculpas para fugir do compromisso da escuta, e de tantos outros. Na verdade, desta maneira, estamos deteriorando o viver, e prejudicando profundamente a nós mesmos que somos seres necessitados de afeto. E afeto significativo, não é processado nas abreviações das expressões.

Não falamos mais olhando nos olhos, preferimos enviar áudios ou textos curtos para pedidos de desculpas ou expressões de amor e gratidão. Abreviado, fica mais fácil , não é? E assim as relações afetivas se encolhem e ficam cada vez mais superficiais e rasas. Que pena! Árvore sem raiz não se sustenta , e seres humanos que não cultivam relações emocionais saudáveis também não. Logo, as doenças somáticas batem à porta!…

O amor então, nem me fale! Amar tem se tornado retrô, a moda do momento é viver afetivamente em conta gotas, porque amar de verdade é trabalhoso, e exige tempo e disponibilidade. O amor dos aplicativos fica mais viável, porque lá não preciso ser eu mesmo, e nem sustentar a relação, porque a oferta no cardápio é grande e não nos exige profundidade.

O próprio amor familiar interno, tem se tornado um simples cumprimento de rotinas, onde se o que deve ser feito, estiver sido feito, então está ok, pode ficar no seu canto que eu fico no meu. E cada um procura seu aparelho eletrônico preferido, que está tudo certo. Ninguém pergunta mais como foi o dia do outro, e nem se preocupa se o outro engordou ou emagreceu. Afinal, quanto menos se perceber o outro, melhor. Menos “trabalho”.

Mas não podemos abreviar o viver!

Precisamos uns dos outros, e das relações afetivas verdadeiras e reais para nosso crescimento emocional. Precisamos do olhar que acolhe e compreende, dos ouvidos atentos e pacientes, dos abraços sem pressa que falam mais que qualquer palavra. Precisamos escrever mais cartas, cartões e bilhetes afetuosos, expressando afeto para tantos à nossa volta, que precisam recebê-lo. Precisamos ler mais sobre o que nos edifica e nos aprimora como seres humanos que somos, em busca de uma evolução sempre, porém focados na integridade do SER. E não há como SERMOS INTEIROS, se continuarmos vivendo pelas metades, e abreviando o VIVER genuíno.

 

RAFAELA DI GUIMARÃES
CRP 13804
PSICÓLOGA, PSICANALISTA DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES.
HÁ 21 ANOS, AUXILIA FAMÍLIAS NO INTUITO DE PROMOVER O EQUILÍBRIO E A SAÚDE EMOCIONAL.
ATENDE EM BRASÍLIA
CONTATO: @psicorafadiguimaraes

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