No país de Bolsonaro, o Mês do Orgulho deixou de ser uma mera campanha de marketing

É de praxe nos calendários dos departamentos e agências de marketing: o texto declarando apoio da empresa X à causa LGBTQIA+ (até revisam a sigla para não errar), um post bonito para o Instagram, e uma arte de perfil colorindo a marca da empresa com as cores do arco-íris. A foto de perfil tem prazo certo para sair do ar: 1º de julho.

Tudo muito previsível. Tão previsível que, mal chegou o mês de Orgulho, as redes já estavam repletas de sátiras a respeito das campanhas superficiais e vazias promovidas nesta data. A tiktoker @jujudosteclados ao ler um script do #MêsdoOrgulho para cumprir tabela, recheado de jargões e gírias para tentar se aproximar da comunidade, com o intuito final de vender tupperwares e panelas, resumiu bem esta sensação. E este tipo de crítica (Pinkmoney) já está virando tradição nesta época do ano, tanto quanto reclamar do por quê um ovo de chocolate é tão mais caro que uma barra durante a Páscoa.

Mas não estamos em tempos normais. Vivemos o avanço do conservadorismo e de ideias que instigam medo/ódio a quem não vive sexualmente de acordo com a “norma”. E campanhas que antes faziam parte da rotina do publicitário podem se tornar verdadeiras manifestações políticas neste contexto. Foi o caso da peça do Burguer King, um comercial de 1:20 minuto que caiu como uma bomba na “guerra cultural” da internet. Isso porque, em vez de recorrer à fórmula que funciona para o nicho das ‘POCs’, o comercial resolveu confrontar diretamente um argumento que muitos utilizam para justificar seu medo ou aversão a casais homossexuais: “como explicar isso a uma criança?”.

Quem responde a esta pergunta na peça são as próprias crianças: filhos adotivos de casais homoafetivos. Contrariando o grande temor dos conservadores, nenhuma criança do vídeo faz menção a sexo ou sexualidade. Se referem aos pais gays e mães lésbicas apenas em termos de afeto e carinho. O Brasil possui mais de 34 mil menores vivendo em abrigos e orfanatos, muitos dos quais gostariam de receber aquele amor fraterno ou materno representado na esquete enquanto saboreiam um delicioso whooper.

Dentre as reações, a do apresentador Sikêra Jr. beirou o inacreditável: referindo-se à comunidade LGBTQIA+ como “raça do cão”, ele insinuou que a campanha do fast-food era uma forma de aliciamento de menores (“estão atrás das nossas crianças”). Em resposta à manifestação claramente homofóbica, internautas resolveram atingi-lo no bolso. O grupo Sleeping Giants Brasil, que já havia desmonetizado grandes sites e blogueiros notórios por divulgarem fake-news, apontou seu canhão de quase meio milhão de seguidores para o apresentador bolsonarista. Em cerca de uma semana, a ação retirou o patrocínio de 29 marcas do programa de Sikêra Jr. até a data desta publicação. Com a campanha, as marcas se viram obrigadas a honrarem o arco-íris que adornaram em suas redes sociais.

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